Nenhuma crise pode apagar ou definir um país
A queda de um ditador não garante liberdade quando a transição não devolve ao povo o direito de decidir seu destino
Em toda crise, há uma tentação de reduzir um país ao seu governo, ao seu conflito mais recente ou ao ruído de versões que se atropelam. Com a Venezuela, essa redução é especialmente injusta. O que está em jogo, antes de qualquer disputa geopolítica, é a vida concreta de milhões de pessoas e a continuidade de uma cultura que atravessou séculos de encontros, rupturas e reinvenções, tal qual o Brasil. A Venezuela é seu povo e sua história, na dignidade cotidiana de quem mantém a vida comum em movimento, mesmo quando o Estado falha e quando a política é só tensão permanente.
Em 3 de janeiro de 2026, veículos internacionais noticiaram uma operação militar em território venezuelano e a detenção do presidente do país, conforme declarações públicas da Casa Branca. Autoridades venezuelanas denunciaram agressão. Na região, a reação de muitos países foi de preocupação, e o Brasil manifestou-se publicamente em defesa da soberania venezuelana. Nosso país sente na pele essa pressão, porque acolhe há tempos milhares de venezuelanos que chegam ao nosso país não por simples conveniência, mas fugindo do autoritarismo de um governo, e que aqui conseguiram reconstruir a vida em cidades brasileiras com trabalho e dignidade.
Muitos detalhes seguem em apuração, e pontos sensíveis permanecem em disputa no plano informacional e diplomático. Essa incerteza, porém, não suspende o dever de priorizar a proteção dos civis e impedir que a violência se naturalize como método de “solução”. Vivemos o que Milton Santos apontava como uma globalização perversa, regida pela dupla tirania do dinheiro e da informação. Nela, o povo deixa o centro da decisão pública e é conduzido à condição de espectador. O cidadão é rebaixado a consumidor. Quando isso acontece, a soberania vira retórica e a vida comum passa a servir a interesses que não se submetem a voto nem a responsabilidade.
A detenção de um governante não produz, por si, um país livre, o que faz lembrar de uma frase atribuída ao poeta e ensaísta sírio Adonis, “trocar de dono, não te livra da jaula”. Quando se fala em administrar um país a partir de fora, o risco é substituir autoritarismo por tutela estrangeira, e isso não devolve soberania nem garante bem-estar. Em um cenário de competição global, sobretudo quando se trata de um país com recursos estratégicos, a prudência exige desconfiar de narrativas fáceis de salvação e manter o foco na proteção de civis e no direito do povo venezuelano de decidir o próprio destino.
Falar da Venezuela é dizer de um patrimônio humano e cultural que vai bem além do que se vê nos noticiários e na disputa por versões infodêmicas. Trata-se de um país nascido do encontro entre contrastes de território e heranças diversas, cuja identidade não se confunde com seus governos. A memória de Simón Bolívar projetou, para toda a região, a ideia de destino compartilhado, com soberania como condição de liberdade. Essa mesma potência se expressa em linguagens universais, como o Carnaval de El Callao, reconhecido pela Unesco como patrimônio cultural imaterial, afirmando pertencimento e continuidade, e Canaima, inscrita como Patrimônio Mundial, o que nos lembra que há bens que não podem ser convertidos em espólio de guerra. Quando forças externas decidem por um país, são as famílias comuns que pagam o preço, e é por isso que entendo que defender soberania é defender a vida e a dignidade de um povo.
Há também uma Venezuela de potência material, e isso importa porque recursos estratégicos raramente atraem atenção desinteressada. Quando esses recursos entram no centro do tabuleiro, convém ouvir Eduardo Galeano, para quem “Nuestra riqueza ha generado siempre nuestra pobreza para alimentar la prosperidad de otros.” A questão, então, deixa de ser a promessa de libertação e passa à disputa pelo controle.
Ao longo do século XX, o petróleo deu norte à economia venezuelana e projetou o país no sistema internacional. A Encyclopaedia Britannica registra que, do fim dos anos 1940 a 1970, a Venezuela foi o maior exportador de petróleo do mundo. Em 1960, esteve entre os países fundadores da OPEP Organização dos Países Exportadores de Petróleo, um marco de afirmação de interesses nacionais diante de assimetrias globais. Em 1976, a nacionalização do setor criou a PDVSA Petróleos de Venezuela S.A., símbolo de uma agenda de autonomia sobre a principal fonte de riqueza do país. Hoje, a Venezuela segue sendo detentora das maiores reservas provadas de petróleo do mundo, em torno de 303 bilhões de barris, segundo a U.S. Energy Information Administration e coberturas econômicas recentes. A história mostra um país que já foi vibrante e financeiramente poderoso, e que tem base material e capital cultural para voltar a sê-lo, desde que a reconstrução seja feita com instituições, direitos e inclusão.
Como também escreveu Galeano: “Las guerras mienten. Ninguna guerra tiene la honestidad de confesar: ‘Yo mato para robar.” É justamente por isso que a guerra é um caminho no mínimo questionável. A Carta da ONU funciona como uma linha de contenção civilizatória para impedir que a força se imponha sobre o direito. Ela fixa limites ao uso da força e orienta a solução pacífica de controvérsias, preservando a integridade territorial e a independência política dos Estados. Quando a intervenção armada se naturaliza, cria-se um precedente que fragiliza a todos, sobretudo os países cuja soberania já foi repetidamente testada por interesses externos. Defender soberania e legalidade internacional é essencial à proteção da região diante de um mundo em que a regra parece estar cedendo lugar à força.
Este ponto precisa ser muito claro, para não dar espaço à polarização afetiva. Defender soberania, legalidade internacional e paz não significa relativizar violações internas, nem defender ou legitimar um governo ditatorial. A Venezuela enfrenta severos questionamentos democráticos e denúncias de violações de direitos, e isso deve ser tratado com seriedade institucional. Mas nenhum quadro interno autoriza, por si, a substituição do direito internacional pela força. Se o continente aceita esse movimento em silêncio, perde-se a possibilidade de responsabilização legítima e abre-se espaço para a política do fato consumado.
É também nesse terreno que o Brasil pode contribuir, dado seu histórico de mediação, minimizando danos e atuando como fiador de um caminho político que devolva ao povo venezuelano o direito de decidir, com segurança, transparência e horizonte de eleições diretas, competitivas e verificáveis. Uma transição legítima necessita pactos internos, amparados por garantias e acompanhamento multilateral. Imposições armadas e arranjos definidos fora do continente não dão base para ajudar nisso. Ao liderar uma articulação regional comprometida com a legalidade internacional, o Brasil tem condições de reduzir o risco de escalada, proteger civis, e afirmar o princípio essencial de que crises latino-americanas precisam de solução latino-americana, livre de ingerência de países de fora da região e sustentada por regras, não pela força.
A dimensão humana, para nós brasileiros, tem rosto e nome. Há venezuelanos no Brasil que vieram buscando proteção e reconstrução de vida, e agora assistem, com ansiedade, à escalada de tensão sobre seu país. Solidariedade inequívoca ao povo venezuelano significa defender acolhimento, dignidade e direitos, e também exigir que qualquer caminho de transição ou recomposição institucional seja orientado pela proteção de civis, pela legalidade e por mecanismos multilaterais verificáveis.
Seguimos atentos ao desenrolar desta crise e reafirmamos nossa solidariedade ao povo venezuelano, que tem suportado provações sucessivas e merece retomar seu caminho com dignidade, democracia e soberania.
Texto de João Carlos Corrêa. O blog do Núcleo é um espaço de compartilhamento de ideias e reflexões em linguagem mais livre do que artigos científicos. As opiniões expressas são pessoais e não representam, necessariamente, o entendimento institucional do Núcleo.
São Paulo, 5 de janeiro de 2026
Deixe um comentário