O que somos? Sobre a obsessão por classificar e a tarefa de pesquisar
Decolonial, pós-colonial, anticolonial, contracolonial. Antes de pesquisar, parece que é preciso escolher um crachá. Será?
Quando comecei a investigar o Programa Bolsa Família, minha pergunta não era teórica. Era concreta. Eu queria entender como uma política de transferência de renda constrói os sujeitos a quem se destina. Como o Estado brasileiro nomeia, classifica e produz o “pobre”. Que tipo de relação se institui entre quem distribui o benefício e quem o recebe. Se a promessa de emancipação carrega, dentro dela, formas de tutela.
Esse problema me levou a autores de tradições distintas. Quijano, Mignolo, Lugones e Segato me deram categorias para pensar como a colonialidade se inscreve nas instituições e na classificação dos sujeitos. Foucault me permitiu pensar a condução de condutas como tecnologia de governo. Fanon me mostrou que a colonização produz feridas que nenhuma política compensatória resolve sozinha. Spivak me obrigou a desconfiar da representação. Gonzalez e Carneiro já tinham pensado a racialização e o gênero na formação do Estado brasileiro muito antes de qualquer rótulo organizar suas contribuições. Meu trabalho se alimenta do campo decolonial de modo central, mas não se encerra nele. Essa composição não foi resultado de ecletismo. Foi exigência do objeto.
O que veio depois foi inesperado. A partir do momento em que usei o conceito de colonialidade para analisar uma política pública brasileira, passei a ser interpelado por um rótulo. “Você é decolonial?” A pergunta não vinha como curiosidade intelectual. Vinha como exigência de pertencimento. Como se mobilizar Quijano significasse assinar um contrato de exclusividade com uma escola de pensamento. Como se eu precisasse, a partir dali, responder por um campo inteiro em vez de responder pelo meu problema de pesquisa.
Meu mestrado e doutorado foi no Programa de Estudos Comparados sobre as Américas, na Universidade de Brasília. Os autores que atravessam o debate da colonialidade, dos estudos subalternos, do pós-colonialismo, são minhas referências de formação. Li Quijano, Said, Bhabha, Chakrabarty, Hall, Maldonado-Torres, Rivera Cusicanqui, Mbembe antes de saber como cada um deles seria catalogado pelo debate brasileiro. Esses textos são o chão de onde penso. Não a cerca que delimita até onde posso ir.
O início de 2026 trouxe um debate que expôs esse incômodo com nitidez. Vladimir Safatle publicou na piauí um ensaio em que distingue três momentos da crítica ao colonialismo. O primeiro, anticolonial, vinculado ao marxismo e às lutas de libertação nacional. O segundo, pós-colonial, deslocado para a universidade e os estudos subalternos. O terceiro, decolonial, centrado no grupo Modernidade/Colonialidade. Sua conclusão era que os estudos decoloniais não são suficientemente descolonizadores. As réplicas de Érico Andrade e Jonnefer Francisco Barbosa apontaram simplificações na periodização, mostraram que a fronteira entre cultura e economia política já era instável em Fanon e contestaram a reificação do “decolonial” como bloco homogêneo.
O debate é de qualidade. Cada texto traz elementos que merecem consideração. O que me surpreendeu foi perceber quanta energia o debate consumiu na tarefa de classificar. Quem é decolonial, quem é pós-colonial, quem é anticolonial, quem é marxista. E como essa energia classificatória apareceu não apenas no texto de Safatle, mas também nas réplicas. A disputa sobre a qual tradição pertence cada autor ou cada ideia ocupou um espaço que poderia ter ido para outra direção. Talvez isso diga menos sobre os debatedores do que sobre o tipo de reflexo que o campo intelectual brasileiro desenvolveu diante dessas tradições.
Luís de Gusmão, meu professor na graduação em Sociologia na UnB, escreveu em O fetichismo do conceito sobre algo que reconheço nesse tipo de dinâmica. Gusmão argumenta que as ciências sociais supervalorizam o poder explicativo dos conceitos. A pesquisa empírica cede lugar a ilações dedutivas feitas a partir de conteúdos conceituais. O diagnóstico dele era sobre a sociologia brasileira e sua relação com Weber, Marx e Bourdieu. Mas o mecanismo que ele descreve reaparece, com outras roupas, na disputa classificatória entre tradições críticas. Quando a pergunta “você é decolonial ou pós-colonial?” antecede a pergunta “qual é o seu problema de pesquisa?”, o rótulo substitui a investigação.
Não estou dizendo que rótulos são inúteis. Alinhamentos teóricos existem, e negar isso seria ingenuidade. Diferentes tradições partem de lugares distintos e chegam a conclusões que nem sempre dialogam entre si. O marxismo anticolonial de Fanon e o pensamento fronteiriço de Mignolo não são a mesma coisa. Distinguir é necessário. O problema começa quando distinguir se torna a atividade principal e a pesquisa sobre os fenômenos concretos fica em segundo plano. Quando o mapa se torna mais interessante que o território.
Minha experiência pesquisando colonialidade nas políticas públicas me ensinou algo simples. O problema convoca os autores. Não o contrário. Quando olho para como a assistência social brasileira constrói seus destinatários, preciso de Quijano e de Foucault, de Fanon e de Segato, de Gonzalez e de Carneiro. A fidelidade é ao problema, não à escola.
O VENAS ABIERTAS nasce como espaço para esse tipo de investigação. Estudamos os efeitos do colonialismo na América Latina e seus desdobramentos nas políticas públicas. Colonialidade, como conceito formulado por Quijano, é uma das ferramentas que mobilizamos. Não a única. Não pretendemos nos definir por um jargão ou nos filiar a uma corrente como quem adere a um partido. Queremos pensar. E pensar, às vezes, exige recusar a primeira pergunta que nos fazem.
Texto de Emmanuel Brasil. O blog do Núcleo é um espaço de compartilhamento de ideias e reflexões em linguagem mais livre do que artigos científicos. As opiniões expressas são pessoais e não representam, necessariamente, o entendimento institucional do Núcleo.
Brasília, 24 de março de 2026
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